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por Jorge Alfredo

 

Paula Gomes está em Buenos Aires editando “Filho de Boi”, a nova produção do coletivo Plano 3 Filmes. Para ela, “filmar é uma experiência construída pela lógica do encontro. O filme deve ser resultado da soma das experiências pessoais de um grupo. E nesse contexto, não cabe um diretor-gênio que dá as cartas sozinho, não cabe uma equipe cheia de setores hierárquicos que não se conectam…” Ela me concedeu essa entrevista por e-mail e foi muito prazeroso ouvir o que pensa essa menina danada, que nos últimos anos tem arrebatado a crítica e plateias alternativas com seu “Jonas e o Circo sem Lona”. Ela, juntamente com Haroldo Borges, Marcos Bautista e Ernesto Molinero, está há 10 anos agitando a cena cultural e, entre outras coisas, preocupada em saber “quando um filme termina pra você?”. Confira!

1 – A primeira lembrança que tenho de você, Paulinha, é a gente voltando no mesmo avião do Festival de Brasília. Em 2002, talvez…Você fizera a produção de um curta metragem de Haroldo Borges. Fale um pouco sobre essa época que me parece ter sido a sua primeira participação num grande festival. 

– Lembro muito desse dia também, Jorge! Nós voltamos conversando bastante sobre cinema naquele vôo… O ano era 2006, a gente tinha acabado de filmar “Noite de Marionetes” e “Piruetas”, e estrear em Brasília era algo realmente especial!  É engraçado, porque sua pergunta me fez olhar pra trás, e ver como filmamos aqueles primeiros curtas copiando modelos: os planos desenhados no story board, o set hierarquizado…  E deu pra sentir como de lá pra cá nós viemos nos conectando com um cinema que tem muito mais ver com quem somos, e que inclusive é mais próximo do documentário. Que até pra filmar as ficções, está atravessado pelo documentário. Também foi naquela época que nós criamos o nosso coletivo. Um gesto artístico, mas sobretudo político. E aqui estamos, juntos, completando 10 anos de Plano 3 Filmes… Acho que “Jonas e o Circo sem Lona” coroa esse momento tão bonito pra gente!

 

 

2 – Fale mais sobre esse nova forma de realizar filmes, sobre esse “coletivo” e como vocês criaram esse vinculo com Buenos Aires…

– A gente não tá mais interessado em filmar roteiros pré-formatados, colocar nossas falas na boca dos atores, cumprir cronograma de seis semanas de filmagem e voltar pra casa. Antes, por exemplo, se começasse a chover durante a gravação de uma cena, a gente guardava os equipamentos e ia correndo preparar o plano B. Hoje em dia, a gente filma a chuva! E isso é tão rico… Claro que pra ir pro set com esses olhos tão abertos ao imprevisto é preciso um planejamento muito consistente, que existe justamente pra gente se atrever a subvertê-lo. Pra mim, filmar é uma experiência construída pela lógica do encontro. O filme deve ser resultado da soma das experiências pessoais de um grupo. E nesse contexto, não cabe um diretor-gênio que dá as cartas sozinho, não cabe uma equipe cheia de setores hierárquicos que não se conectam, nem serve apertar botões e carregar ferros se seu coração não estiver ali… Então, dentro dessa lógica, ser um coletivo é o caminho natural… Mas não tô dizendo aqui que essa é a fórmula do cinema, não, viu, rsrs… É só nosso jeito de filmar. E claro que pra funcionar é preciso definir estratégias, é preciso que as pessoas estejam dispostas a viver essa experiência.  Esses dias, estivemos refletindo muito sobre a pergunta “quando um filme termina pra você?” E a melhor resposta a que chegamos foi: “quando não somos mais os mesmo que começamos a fazê-lo”. É isso que estamos buscando agora e foi assim que mergulhamos em “Filho de Boi”, nosso próximo filme, que está em etapa de montagem.

E sobre Buenos Aires, sempre admiramos muito o cinema argentino, esse foco no relato, no “ter algo a dizer”, esse cinema que busca inovar, mas que não desconsidera o lugar do público. Então a gente escolheu estudar cinema em Buenos Aires e aprendemos muito nesse intercâmbio. Concluímos o curso em 2009, mas estabelecemos laços tão fortes com outros realizadores argentinos e também de outros países latino-americanos, que até hoje, seguimos trabalhando juntos.

 

3 – Com “Jonas e o Circo sem Lonas” você teve um reconhecimento muito positivo da crítica, mas enfrenta ainda muita dificuldade na distribuição do seu filme. Queria que você falasse sobre a incrível trajetória de “Jonas” e como você vê o circuito tradicional de cinema, o espaço do filme na tv e nos circuitos alternativos. E tem uma coisa que me incomoda muito, que eu gostaria de ouvir sua opinião: No Brasil tem essa tal cota pro filme nacional. A produção nacional de filmes cresce a cada ano.  E junto a isso tudo uma forma bastante perversa de se lançar um filme; Essa coisa de um filme mesmo na sua primeira semana ocupar apenas duas ou três sessões e às vezes apenas uma sessão. Como se pode medir a aceitação de um filme desse jeito? Antes, na primeira semana todo filme entrava no horário cheio e se tivesse uma ocupação de uma média tal, na semana seguinte, permanecia no horário cheio ou não. Outra coisa: o trailler passava na semana anterior da estreia… Sabe o que me parece? Que colocam nossos filmes assim para cumprir a tal cota. Isso acontece na Argentina, por exemplo? E em outros lugares?  Fale sobre a sua experiência com “Jonas”. Ele circulou em outros países apenas em mostras e festivais, ou chegou ao circuito comercial?

– A trajetória de nosso “Jonas e o Circo sem Lona” foi uma grande surpresa e continua tendo lindos desdobramentos… O filme estreou no IDFA (Amsterdã) e depois passou por mostras e festivais de mais de 20 países, conquistando 12 prêmios, como o Prêmio do Público do Festival de Toulouse, Melhor Opera Prima do Festival Miradas Doc, Prêmio do Júri do Festival de Austin, Melhor Personalidade na Tela do Festival do Harlem, Prêmio do Júri Jovem do Panorama de Cinema, Prêmio Destaque do Cine Esquema Novo, entre outros. Junto com tudo isso, tem o maior prêmio de todos, que é o carinho do público, as mensagens que recebo toda semana nas redes sociais, a inclusão do filme na lista de filmes obrigatórios para o Vestibular da UESB, as sessões no circuito de cineclubes de todo o país… Em salas comerciais, embora estamos estudando possibilidades de outros territórios, até então só estreamos no Brasil. E é aí aonde o gargalo da distribuição aperta, né? Eu concordo com você que na primeira semana precisamos de horário cheio e também precisamos de uma política de formação de público, de mais recurso pro P&A.  Mas essa semana, por exemplo, fiquei feliz em ler uma entrevista da Debora Ivanov dizendo que a Ancine vai olhar de forma especial para a distribuição em 2018. No caso da Argentina, acho que o que marca uma diferença é que existem salas públicas em diferentes cidades do país, com boa qualidade de projeção e ingresso a preços acessíveis para o público. Isso melhora um pouco o cenário pra produção independente no país, mas assim como no Brasil, as grandes salas comerciais também estão ocupadas por filmes gringos.

4 – Gostaria que você falasse mais da sua experiência com “Jonas”. Porque sei que quando a gente, por algum motivo, consegue romper uma muralha que existe entre uma pequena produção independente e o sucesso de público e/ou da crítica especializada, experimenta alguma coisa muito especial. E isso geralmente é transformador na forma íntima de entender a produção cinematográfica. E também, na sua resposta anterior, faltou falar do espaço do filme na tv.

– Sobre os canais de TV, o filme hoje tá nas grades do Canal Brasil e também na TV pública da Coreia do Sul. A gente acabou de fechar com um agente de vendas que tem acesso a potenciais mercados do continente e também da Ásia e Europa. Além disso, o público também pode assistir o filme nas plataformas Itunes, Google Play, Vivo Play e Net Now.

“Jonas” foi uma experiência muito linda, transformadora mesmo. A gente foi pro set só com uma 5D, um gravador de som, e uma vontade imensa de contar aquela história. Porque sentíamos que tinha algo muito precioso acontecendo ali. E eu até hoje não sei se era Jonas crescendo, se era a gente voltando a ser criança, ou se era tudo junto. Tem uma coisa, que tem muito a ver com a nossa forma de fazer cinema, que é esse desejo de narrar, de compartilhar a experiência com o outro, isso é o que nos move… E nesse sentido o que foi muito especial, foi que aquela história tão pequenininha, tão nossa, aquele cinema de fundo de quintal, voou. Olha que coisa: foi no fundo do quintal que a gente encontrou o cinema. Isso sim que é aprendizado, rs… E esse é o nosso desafio agora, continuar buscando esse cinema-encontro, esse cinema-sonho, continuar sonhando, nesse país onde hoje está proibido sonhar. Vamos em frente!

 

Um Comentário...

  1. Sérgio Dias disse:

    Sensacional entrevista com essa pessoa maravilhosa que eu aprendi a admirar pela sua simplicidade, humildade e bondade. Tive a felicidade de trabalhar junto com a trupe da 3 filmes nas filmagens do seu último longa “Filho de Boi” no sertão castigado baiano. Foram 60 dias de trabalho muito gratificante, uma experiência única na minha vida. Aprendi muito com essa equipe maravilhosa, Paula, Haroldo, Marcos e Aroldo.
    Obrigado à todos vocês, parabéns pelo sucesso com “Jonas” e certamente “Filho de Boi” baterá todos os recordes e de sucesso, pq é uma equipe que dar o sangue em seus trabalhos. Uma equipe unida e linda de se ver. Feliz 2018 para todos!! Um ano novo cheio de saúde,paz, amor e muito sucesso na carreira de todos vcs. Abraços!!

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