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por Jorge Alfredo

 

Durante a sessão na Sala Walter da Silveira do média metragem “Alápini – a herança ancestral do mestre Didi Asipá” , de Emílio le Roux, Hans Herold e Silvana Moura, eu senti uma energia muito boa no ar!  Algo difícil de explicar. Falar sobre essas coisas extrasensoriais é complicado…  O certo é que fiquei impressionado com aquela sensação de bem estar que tomou conta de mim! Ficava pensando; que gente bonita, que bom que isso existe!

A grande parte daquela plateia era gente de Santo. Mas, tinha também muitos artistas, cineastas, tanto que precisou haver uma segunda sessão, também lotada. Daí me veio uma vontade de bater um papo com Silvana Moura e no outro dia a procurei para sugerir essa entrevista. Em outra oportunidade, quem sabe, procure também os outros dois co-diretores e alguns òjés do Ilê Asipá.

 

 

– Silvana, só recentemente vim associar seu nome ao de Alfredo Moura, o grande maestro do movimento da Axé Music. Vocês são os únicos artistas da família? Me fale um pouco de você, de como se interessou pelas artes, como entrou na TVE para dirigir um dos raros programas locais dedicados à cultura.

 

 

 

– Sério, Jorginho? Todo mundo sabe disso! Somos de uma família de artistas, basicamente músicos. Meu avô paterno, José Moura era flautista, violoncelista e compositor. Tenho 12 tios e todos tocam. Minha mãe, Neyde Moura é pianista, cantora, regente e quando se aposentou, deixou de dar aula de música e reger coral, eu a incentivei a fazer um curso de teatro na UFBA e ela se transformou numa grande atriz. Você sabe que ela é minha mãe, não sabe?

Essa mulher é incrível, antes de entrar na alfabetização, a gente já estava na iniciação musical. Depois cada um seguiu seu caminho, Alfredo na música e eu fiz o preparatório na Escola de Música, mas não continuei. Fui dançar. Fui aluna da grande Mônica Ballalais, fiz parte do Grupo do Studio com Tereza Cabral, dancei com Geraldinho Fiuza, Eliana Pedroso, Pamela Richardson. Fazia ballet, sapateado, jazz com Lívia Pedro. Eu gostava muito e ia seguir o caminho profissionalmente, quando resolvi fazer escola de comunicação e não de dança. Entrei numa que o cinema era a junção de todas as artes, assim como a ópera. Trabalhei na Oficina de Vídeo do Liceu de Artes com Mari Travassos, depois fiz freelas nas produtoras, passei pela TV Aratu, fiz estágio na Band e mandei meu currículo pra TVE, queria trabalhar com Josias Pires no Bahia Singular e Plural.

Fui selecionada para a Educadora FM, depois Washington Souza Filho me chamou para fazer, nas vésperas do carnaval, uma série sobre blocos afro e eu fui pra tv. Ele sabia que eu tinha o pé bem enfiado na cultura popular, gostava de música, carnaval, pesquisava tudo isso…

Então fui fazendo produção, coordenando o Soterópolis, escrevendo e dirigindo documentários e estou na TVE até hoje.

Paralelo a isso, sempre fiz todos os cursos possíveis na área de audiovisual, juntava dinheiro pra fazer curso nas férias e tenho aprimorado minha escrita de roteiros. Elaborado projetos. Não tem uma semana que não entre numa sala de cinema!

 

– E seu envolvimento com o candomblé, como se deu? Disso eu fiquei sabendo por causa de Hans Herold, meu querido amigo, diretor de fotografia de muitos dos meus filmes, chileno de nascença, que também tem um envolvimento profundo com o povo de Santo.

 

 

– Pois é, sou neta de pastor batista. Minha família é protestante, mas minha mãe sempre deu a liberdade de escolhermos ter uma crença ou não. Frequentei a escola dominical até os 12, 13 anos, depois questionei alguns dogmas, não concordava com a ideia de pecado e culpa e viajei em diversas leituras como Carlos Castaneda, Krishnamurti, Nietzsche, Espinoza. Andei descrente, depois me interessei pelo budismo, pelo paganismo… Fui visitando templos aqui, em outros países e acho que Jorge Amado, Verger, Gil e Caetano me levaram ao Afonjá. Sabe? “ A roça do Opô Afonjá, mas nada é mais lindo que o sonho dos homens fazer um tapete voar” Eu queria conhecer essa Bahia, que as meninas de classe média como eu desconheciam. Eu vi o Badauê pequena, eu ia sozinha escondida ver o Ilê no Campo Grande… Então me encantei.

Conheci Hans em 97 ou antes, lá no Liceu e ele tinha uma conta no pescoço, eu também tinha. Um perguntou pro outro: – “Qual é seu terreiro?” E os dois responderam : – “Opô Afonjá!”. Isso é maravilhoso, porque ninguém tinha nada no Afonjá, acho que não eramos nem “ abiyan” ( noviços de conta lavada), mas nos sentíamos pertencentes ao axé de São Gonçalo. Começamos a namorar e uma vontade de fazer filmes com aquele pessoal maravilhoso foi crescendo dentro da gente.

Conhecer aquelas mulheres incríveis, batalhadoras, sábias, que não baixavam a cabeça, não se lamentavam, nem ficavam esperando o paraíso na vida eterna, foi transformador pra mim.

Comecei a conversar com todas elas, saber do tempo da perseguição, procurar as histórias e elas adoravam isso. De repente, parecia que eu tinha vivido tudo aquilo, desde a Barroquinha, meu Pai Martiniano, Vovô Presideu… Elas começaram a me chamar de Egbomi do Camarão, como se eu fosse muito antiga , do tempo de minha Mãe Aninha.

Então não parei de frequentar a roça, conversar com minha Mãe Stella, Mãe Georgete, minha Mãe Tutuca, Tia Oba Tere, Mãe Nidinha e quando eu vi, já éramos filhos da casa, íamos pro Asipá, eu ganhei um título lá, Babá Ibitinan me deu! Fiquei amiga da família, amiga mesmo: Cida, Cátia, Nicéa, Lucas, Tonho, Zé, os meninos pequenos Mateus, que eu chamo de afilhado… Hans também. Somos da família e isso é uma grande honra pra gente.

Quando eu vi Mestre Didi, eu pirei. Tinha um conhecimento medíocre da obra visual dele, mas ver o homem em ação, foi avassalador. Comecei a ler seus livros e descobri a magnitude daquele ser, pra mim um dos maiores homens que encontrei na vida.

 

 

 

– A avant première, na Sala Walter da Silveira, dias atrás, de “Alápini – a herança ancestral do mestre Didi Asipá” foi mais do que um sucesso de publico, já que além de lotar totalmente a sala – inclusive com gente em pé nos corredores – foi preciso fazer uma sessão extra, que também lotou. O que mais me chamou a atenção no seu filme foi a firmeza em escapar da vitimização e do racialismo, hoje em dia tão em voga. Fale sobre isso!

 

– Deoscóredes Maximiliano dos Santos não tinha nenhum complexo de inferioridade, porque ele sabia de onde ele vinha. Mestre Didi conhecia sua origem, sua cultura, sua religião, ele tinha noção da riqueza cultural do africano, do seu papel na formação do Brasil, da sabedoria e força da sua tradição. Tudo isso nessa triste Bahia, tão dessemelhante… Pô, Jorginho, essa forma do Mestre se comportar, me fascina. A história do Brasil foi e é cruel com os negros, nossa sociedade continua a discriminar, a oprimir. Nosso país é injusto, é desigual. Vivemos um abismo social, os direitos não são para todos.  Como falamos aqui: – É barril!

O Asipá é um oásis nessa cidade.

Aquele espaço é mágico, faz bem, fortalece, encanta… Encanta porque há axé ali, há amor, há conhecimento, sabedoria ancestral, força. Foi esse ambiente, esses sentimentos que afloraram e que sentíamos a fazer essa homenagem a Mestre Didi, um homem que gostava do ser humano, da vida, das artes, do carnaval, das crianças. No Asipá você convive com pessoas vitoriosas, afetuosas, dignas, pessoas que se orgulham do que são. O filme são essas pessoas, esse lugar, esse espaço de culto a ancestralidade.

– O filme começa com um Òjé nos apresentando os assentamentos do Ilê Asipá. Isso, depois de uma breve introdução sobre imagens de um ritual e um cântico sagrado, afirma-se que o Mestre Didi não morreu. Aí vem uma série de depoimentos sobre o sentido da morte, dos ancestrais, alàpini, eguns babás… E uma coisa chama a atenção; a presença predominantemente masculina no Ilê Asipá. Como é isso mesmo? Eu estou encantado com seu filme. A gente sabe que a cultura afrobaiana é praticamente um matriarcado. E vemos nesse filme a sensibilidade feminina regendo esse universo dos homens…

 

– Pois é, o culto lese-egun é liderado por homens, os ojés. São eles que dirigem a casa e os rituais. No lese-orixá é diferente, são as mulheres.

Para nós que cultuamos, não há morte. ”Se awo kikun, awo kirun, nse awo mawo si Itula Ile Awo!” ( os iniciados no mistério não morrem, os iniciados no mistério vão para o Itulá!) O papel das mulheres no candomblé é importantíssimo, seja no lese-orixá ou lese-egun e elas estão presentes ali no alimento, na preparação dos rituais, com a sensibilidade, o afeto, o amor. Oyá é a rainha, ela tem ligação com o culto aos ancestrais.

Você percebeu essa sensibilidade presente, agora deixe eu perguntar uma coisa. É por isso, que vc só quer me entrevistar? Por que você não conversa também com Emílio e Hans?

– Você, Silvana, é a roteirista e a diretora do documentário. Na avant-première foi você quem apresentou o filme. Essa é uma entrevista que não pretende se ater somente a esse documentário, que, inclusive, sei que você pretende transformar numa série de TV. Também, como chamei a atenção logo na primeira pergunta, você é a responsável pelo Soterópolis, um dos raros programas locais dedicados à cultura. E de um tempo pra cá, diretora de conteúdo da nossa televisão pública, a TVE (Bahia). Acho que isso tudo é mais do que suficiente para que eu tente fazer uma entrevista exclusiva com você. Pra mim, é uma rara oportunidade, já que tenho muita curiosidade em adentrar no pensamento tanto da Babá Ibitinan como dessa mulher vigorosa que a cada dia desempenha um papel mais significativo da cena cultural baiana.

Bem, respondida a sua pergunta, vamos prosseguir?

Uma outra coisa que me deixou curioso, foi que nesse filme vi descortinado parte do mistério que cercava os eguns Babá. Eu tomei conhecimento deles em 1976, levado por Conga, na Ilha de Itaparica. Os Eguns corriam no descampado, eram cercados de mistério e em momento algum tive oportunidade de vê-los de perto. Percebi que inclusive eles causavam até um certo medo nas pessoas. Lembro que o evento durou toda a noite, e não podíamos sair por causa dos Eguns. Só pudemos voltar pra casa quando o dia amanheceu. Nesse tempo todo, de 1976 pra cá, isso ficou na minha cabeça desse modo. Vendo seu filme, fiquei impressionado em poder vê-los com mais clareza. Você pode falar sobre isso?

 

– Ok, captei agora. Fico honrada com seu comentário acima, mas não posso falar sobre isso. Conga é do Asipá e do Afonjá, ele é o grande Reginaldo Flores, nosso tio querido, afilhado do Mestre. Senti muito a falta dele, mas ele não estava em Salvador e não tínhamos produção para ir visitá-lo em Sergipe. Ele sabe muito! Já eu, eu não tenho autorização para falar sobre isso. O que possa falar é que tudo que foi filmado foi autorizado pelos babás e pelo Asipa. Talvez em 1976, não pudéssemos fazer nada disso. Sabe que eu acho, Jorginho, só conseguimos porque era o centenário do mestre e estamos em 2017. Tudo foi feito com muito cuidado. O trabalho de Hans Herold é maravilhoso, respeitoso, feito com zelo e amor. Ele reverencia os ancestrais, por isso ele fez aquelas imagens

O filme é sobre Mestre Didi Asipá, o Alápini, Ipekun Oje e os eguns fazem parte da história dele. Eles estão ali nas cerimônias, eles fazem parte da vida daquela comunidade.

Há muito mistério mesmo, mas o mistério faz parte.

 

 

 

 

 

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