caderno-de-cinema

Home » Artigos » Uma epopéia cearense

 

 

por Oswald Barroso

 

O filme do filme

 

A paisagem nordestina se abre em verde no Vale do Cariri. A serra do Araripe, ao fundo, levanta suas muralhas. No centro do quadro, mais próximo, uma pequena fazenda. A casa-grande, o engenho, o estábulo e o curral.

Aos poucos, se percebe os primeiros movimentos. Detalhes inusitados naquele recanto bucólico. Aproximam-se alguns carros, levantando poeira na estradinha carroçável. Portas se abrem. Descem homens e máquinas. Equipamentos cinematográficos. Mais algum tempo e chegam novos automóveis. Desta vez são figuras usando trajes coloridos. Pelos rostos agrestes se percebe serem homens e mulheres do campo. Os primeiros contatos entre cineastas e brincantes se dão de modo amistoso, mas ainda pouco descontraído.

Agora o sol indica o meio da manhã. No centro do curral estão os protagonistas. Rosemberg Cariry parece agitado. Seu rosto está entre preocupado e eufórico. Um chapéu de palha, circundado de flores róseas feitas de papel crepom, enfeita-lhe a cabeça. O grupo de guerreiros está formado e dança. Os pés desenham passos sobre o chão estrumoso. Trajes de cetim azuis e encarnados. Estrelas e guerreiros. Em torno do grupo circula a equipe de filmagens. Câmera, gravador, máquina de fotografia, auxiliares. Ouve-se o baque surdo da claquete.

rosem

Cantam os guerreiros: “Adeus que eu vou embarcar / Da serra onde moro/ só levo saudade, benzinho”. Os passos estrondam levantando poeira. “Juazeiro é prata fina / Barbalha é ouro em pó / O Crato é uma medalha / que atrai o raio do sol”. Novos passos. “Eu faço peça pra prefeito e delegado / pra tenente e pra soldado / pra sargento e capitão / Não nego não / porque isso não conheço / mas se eu for não esmoreço / brigo até com alemão”. Mateu arremeda: “Brigo até com capitão”. Apito da mestra. O guerreiro insiste: “Ouvi dizer que a revolta está na rua/ Eu vou morena / Eu vou pra São Paulo guerrear”. Novo apito da mestra.

 

Túmulo do beato

 

Dia de Finados. Multidão no cenário. Do chão sobe um estrondo de passos que cobre todos os outros ruídos. Rios de gente entre os túmulos. Um homem de branco, em pé, no parapeito da janela da igreja do Socorro, chama a atenção dos romeiros. O chapéu florido identifica o diretor das filmagens. Ele dá instruções virado de frente pra o túmulo de José Lourenço.

Um senhor de meia idade abre o portão de grade prateado que dá acesso à sepultura do famoso beato. O homem é Eleutério, filho de Conselheiro Severino Tavares, um dos principais protagonistas do episódio do Caldeirão. A sepultura é uma construção azul e bem cuidada, com um pequeno jardim na frente. Eleutério destranca agora uma porta e a luz do sol matinal penetra no altar. Com cuidado, retira as sandálias e arruma os adornos.

vas

Olhos percorrem as paredes. O retrato de José Lourenço numa moldura antiga. O rosto negro e digno. Olhos miúdos e fixos. Noutra foto, essa já mais embaçada, ele enverga sua bata de beato e traz segura na mão uma grande cruz enfeitada com fitas. A mesma que ainda hoje está colocada no centro do altar do seu túmulo. A temida Santa Cruz do Deserto.

Eleutério mostra-se reticente. Ainda há muitos segredos. Os fatos são recentes e vários protagonistas estão vivos. Não bastou seu pai que foi morto e sua gente dizimada? Novas tentativas são feitas e uma entrevista é marcada. Rosemberg Cariry havia conseguido um novo tento em sua procura de esclarecer os fatos. A equipe de filmagens se desfaz na multidão. Eleutério continua seu trabalho. Recebe um por um os romeiros que vão visitar o túmulo do beato José Lourenço. Ao se saudarem, chamam um ao outro de irmão, em voz baixa.

 

Brincantes

 

Os corpos já estão suados. Azul e encarnado. Cantam: “Do norte ao poente / me apresenta um caixão / com letreiro luminoso / chamando o povo atenção / Mas foi Jesus que do céu mandou / aumente a sua roupa / que ele aumenta o pão”. Mateu gargalha. Faz a paródia: “Aumenta a tua roupa / e vai pra casa do cão”.

Rostos infantis. Maria Damiana é baiana. Maria Aparecida é a rainha. A outra Maria é apenas figurante. Sua voz se destaca. Seus pés são hábeis e ligeiros. Doze anos de idade. Afilhada da Mestra, sabe tudo sobre o guerreiro. Em casa, varre, lava a louça e bota água. Não freqüenta escola. Seu maior desejo é ser a rainha. Mas, por enquanto, é apenas figurante. “A madrinha disse que vai montar um traje pra mim usar no ‘quilombo’ de Natal”. Maria será a cabocla de penas. Dançará na frente entre o casal de índios. Diz e sorri para o irmão.

capa3

Francisco é o Mateu desbocado. Peruca, roupa de palhaço e cara preta. Se mostra por trás do disfarce. Treze anos, trabalha para uma usina em Barbalha. Das seis da manhã às dez da noite, carrega um tacho de mel. Ganha por semana o valor correspondente a um prato de comida em um restaurante grã-fino.

Por um instante, Enoque Dias da Silva pára sua caixa-de-guerra. Um mulato baixo, com cabelo pintando. Está rouco e com as feições mostrando um terrível cansaço. Não dormiu à noite. Trabalhando. Já não é nenhum menino.

Desde os 15 anos de idade, trabalha carregando caminhões. Margarida, a Mestra, passa a mão por sua carapinha. Carinhosamente lhe chama de “meu velho”. Ele se anima. O apito da Mestra chama todo o Guerreiro para a cena.

 

Mestra Margarida

 

Margarida é morena lá de Maceió. Ou melhor, de pertinho de Maceió. Ela conta macio sua história. Esquece a voz empostada de Mestra. Batom e ruge, cetim azul e branco. O pai lavrador plantava, era vaqueiro e trabalhava no engenho do patrão. Lembranças de guerreiros e reisados alagoanos perdidos na memória da infância.

Na entrada da era de 40, chegou a menina Margarida (cinco anos) ao Juazeiro, como filha de romeiro. Primeiro foi bandeirinha, aos nove anos virou contra-guia. Até que, mocinha, passou a brincar na frente, como embaixadora. Aprendeu o reisado com o mestre alagoano José Egídio e a mestra Maria Agda (mão de Egídio). Depois, passou para o guerreiro do Mestre Amaro. Quando ele morreu, Margarida assumiu seu lugar.

capa

Esse guerreiro, agora, ela levantou com sua mão. Criação própria. Mistura de reisado e guerreiro. Ceará e Alagoas. Ensaia numa latada ao lado do seu próprio barraco, localizado numa rua pobre do Juazeiro, vizinho ao Estádio Romeirão. Passos de macumba e boi. Peças que são canções tiradas da cabeça. Entremeios das figuras boi, jaraguá, burrinha e guriabá.

Margarida voltou uma vez a Maceió. Foi no início dos anos 80. cantou algumas peças para os mestres alagoanos. Eles ficaram encantados. Queriam reter a colega. Ela pensou no seu velho, que não poderia morar nas Alagoas. Pensou mais no seu guerreiro, formado de gente pobre como ela, que muito precisava da mestra. Voltou. “O meu guerreiro é um João-ninguém”. Diz margarida, se queixando de não ter condições para adquirir um traje novo para as festas de fim de ano.

 

Boi Mansinho

 

Rosemberg Cariry, com seu chapéu de flores, faz sinal para Manuel, que entra embaixo da armadura do boi. O sol está no alto. Manuel sua. A princípio lentamente, o boi começa a fazer evoluções. Boi modesto de guerreiro pobre. As fitas coloridas lhe caem do chifre feito de madeira. O pano cinza, salpicado de estrelas prateadas, cobre seu corpo.

Entre as espadas de metal dos guerreiros, o corpo do boi reluz ao sol. Manuel conduz a figura em passo miudinhos. Graça e encanto. Como se o boi voasse. Atrás e de lado vão os brincantes. Os irmãos. O animal é bonito e tem o pêlo luzidio. Corcunda de boi zebu. Chuva de fitas e alegria. Animal do meu padrinho Cícero, zelado pelo beato José Lourenço. Sinal da festa do povo. Irmandade.

Esse boi dança solto. Sabedoria de gente simples unida em laço colorido. Juntam-se romeiros. Cresce o canto e a ladainha. O beato vai à frente com a Santa Cruz do Deserto na mão. Seguem de Baixa Danta a Juazeiro. O povo do caminho tira o chapéu e sorri. Tem o seu próprio brinquedo. Sua irmandade. Dança, meu Boi Mansinho! Dança unido!

casa

 

Depoimentos

 

Ronaldo Nunes (carioca, 22 anos de cinema, 65 longas-metragens) é o responsável pela fotografia. Fala de profissional experimentado: “Eu visitei o Caldeirão e ali vi a força do filme. Também notei que no Ceará todo cineasta é poeta. De repente, me encontrei no meio deles e me transformei num poeta da imagem. Sinto como se estivesse estreando. Reencontrei-me com o velho clima do longa-metragem”.

Nirton Venâncio (poeta e cineasta cearense) é o continuísta. “Caldeirão é o primeiro grande resgate cinematográfico cearense, a partir de um grande tema nordestino. A linguagem que o Rosemberg está usando tem muita intimidade, ela persegue a realidade. Caldeirão pode ser colocado ao lado de documentários como Jango e Canudos.

Rosemberg Cariry, diretor do filme: “O filme Caldeirão é antes de tudo um compromisso com a história e a luta do povo nordestino. Espero que ele contribua no debate dos movimentos populares organizados e consiga captar a força, a beleza e a determinação do povo nordestino. E que volte para este povo. Ele é um documentário com preocupação científica, mas que não se prende ao ritmo e à estética do documentário comum, porque muitas expressões da cultura popular entram no filme, compondo este poema épico que é o Caldeirão”.

capela

Jefferson Albuquerque Júnior (autor de vários e premiados documentários sobre a cultura popular) está fazendo a produção executiva: “O tema Caldeirão é um dos mais estimulantes. Há mais de dez anos persigo. Fazer o documentário do Caldeirão é quase a realização de um sonho. Nós que estamos aqui fazendo este filme, somos um grupo de privilegiados. Somos um grupo que está liderando o cinema no Ceará, porque estamos indo à luta”.

 

Besta-fera

 

Uma figura sombria ronda o curral onde brinca o boi. Barulho de cascos contra o solo. O cavaleiro enverga traje militar. Antigo uniforme do Colégio Diocesano do Crato. Branco, azul de botões dourados. Nos pés, uma bota de fazendeiro e as esporas. Respiração ofegante do cavalo. O círculo se fecha aos poucos.

Desapercebido, dançam o boi e os brincantes. Inocentes como em santa procissão. À frente vai o Beato. O lavrador Manuel move os passos de Mansinho, alheio à ameaça que se aproxima. Em cima do cavalo, a cara do homem se fecha, barba cerrada, expressão entre ódio e medo.

A civilização ocidental cristã está indignada contra o fanatismo e a heresia que grassam no Juazeiro. Gente perigosa que adora um boi, que se junta em torno, não de um médico, outro doutor ou militar, mas em volta de um beato negro e pobre. O boi é o símbolo, o estandarte da heresia. Floro Bartolomeu decide agir com braço de férreo. Numa mão o livro, na outra a espada. Na testa, 666, o número da Besta-Fera. Agora, ele é Capitão e General.

cas

O cavaleiro sinistro se aproxima. Prende o Beato, mas não basta. O boi continua dançando entre os romeiros. Mansinho é a idéia do Beato. A terra que o trabalhador não possui. Sua crença na felicidade terrena, força que tira leite das pedras e faz de cuscuz as barrancas dos rios.

A Besta-Fera suspende a espada. Mansinho tenta se desviar, mas é tarde. A espada penetra fundo em seu pescoço. Sangue jorrando. Bombas despejadas dos aviões. Sangue em cachoeiras. Cabeças de ex-votos se despedaçam. Milhares foram os assassinados do Caldeirão.

Rosemberg Cariry suspende a cena e pede que o guerreiro se forme. Dá instruções. A um sinal, todos devem se voltar com a espada justiceira na mão e olhar firme nos olhos da câmera. Alguns ensaios são feitos. A ação se repete. O sol tira faíscas do gume afiado que espelha nos olhos dos guerreiros.

 turma

Epopéia cearense

 

De frente ao altar da igreja dos franciscanos, o palhaço pronunciou por três vezes o nome do Caldeirão. Maria de Maio, a filha adotiva do beato Zé Lourenço, fez a conta nos dedos e encheu de júbilo seu coração. Quase 50 anos depois de haver escapado do massacre, ela ouviu o nome do lugar santo onde viveu, no recinto de uma igreja.

Não havia dúvidas de que aquela era uma romaria diferente. As faixas estampavam bem claro a intenção de todos: “Caminheiros em busca de terra livre”. Quase 30 mil pessoas reunidas na II Romaria da Terra. Igreja entupida na tarde quente do dia 12 de outubro, em Juazeiro do Norte. No alto do púlpito, multidão aos pés, o cineasta Rosemberg Cariry tenta captar o momento. O interior do templo, apesar de vasto, era sombrio. Havia falta de refletores para iluminar a cena. Como um bruxo da fotografia, Ronaldo Nunes tenta adaptar o mecanismo da câmera à penumbra, em conversões e contas complicadas. As últimas imagens do filme O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto estão sendo captadas.

O altar dos franciscanos funciona como um palco onde romeiros, dos mais distantes quadrantes do Estado, se revezam durante toda a tarde. Testemunhos giram em torno do temam da luta pela terra, sob as formas mais variadas: canções, dramas, orações, palhaços, discursos, sermões etc. A multidão assiste pacientemente, entre sentada e em pé, comprimida no interior do templo. A câmera varre seus rostos, buscando-lhe a expressão sofrida, mas cheia de esperança.

 fas

Sentimento que renasce

 

Aos poucos o povo romeiro reencontra a sua história. O nome proibido do beato José Lourenço ressurge em sua conversa, como uma luz. Nesse trajeto, o filme de Rosemberg Cariry cumpre um papel. As próprias filmagens são motivo de reavivar a memória. Reúnem-se os remanescentes e o debate é introduzido no seio do movimento popular.

Seu João, marido de Dona Maria de Maio, comemora o acontecimento, tomando meio engradado de cerveja com a equipe de filmagens. Ele também é um dos remanescentes da Irmandade do beato Zé Lourenço e tem sua casa na rua que passa ao lado da enorme fortaleza dos franciscanos, em Juazeiro. Convidou Marina, uma professora do Rio Grande do Norte que morou no Caldeirão, e outros amigos. A cerveja ajudou a desatar as línguas.

Muitos detalhes ainda não haviam sido revelados. Que na comunidade

destruída pela polícia em 36, o produto do trabalho era repartido de acordo com a necessidade de cada um, já se sabia. Mas que o trabalho era voluntário, não obrigatório, é novidade, mesmo para Rosemberg, que há mais de sete anos pesquisa sobre o assunto. Seu João conta muitas outras passagens. As mulheres também. Nem a morte de Seu Henrique, no dia anterior, quebrou a alegria de ver o nome do Caldeirão citado nos cânticos e nos folhetos da Igreja Católica, da mesma igreja que há 50 anos condenou a irmandade do beato como heresia.

duas

Entretanto, não havia nada de condenável no Caldeirão. Ao contrário, era um paraíso. Seu Henrique, agora finado, é que sabia contar direito, com aquelas suas palavras singelas e cheias de comparações bonitas. Ele era dos remanescentes do Caldeirão. Tomava conta do túmulo azul do beato no cemitério do Socorro, indício mais evidente, em Juazeiro, do episódio que envolveu romeiros e polícia em acirrado conflito. Morreu numa quinta-feira, com mais de 80 anos de idade e foi enterrado no dia seguinte. O filme perpetua sua imagem, sua figura miúda cheia de docilidade e sabedoria.

 

Ressurgindo do anonimato

 

Após muito tempo vivendo no anonimato, os sobreviventes do Caldeirão reacendem o orgulho de ter pertencido à Irmandade da Santa Cruz do Deserto. Participam de encontro de trabalhadores rurais e rebatem os argumentos dos padres, que ainda hoje acusam o Caldeirão de centro de fanatismo. Ganham a simpatia de muitos religiosos e fazem, com seus relatos, despertar o entusiasmo dos camponeses sem-terra. Falam com convicção e força nos argumentos.

Dona Maria confessa, narrando a visita que fez às terras do Caldeirão:

“Foi como um sonho, depois de tanto tempo eu voltar lá. Não reconheci quase nada, só a capela. Aquele mato agreste nem parecia o Caldeirão, porque naquele tempo ele era quase como uma cidade”. Mesmo assim, aos poucos, as lembranças foram se chegando: o lugar do cemitério onde Seu João enterrou a mãe, o laranjal em frente à capela, o engenho (hoje um monte de destroços coberto pelo mato) com suas moendas enormes, o arruado sem fim de casas. Tudo foi filmado. Seu João mostrando o lugar, apontando, correndo, engatinhando por dentro do cipoal. E a câmera de Ronaldo Nunes se enfiando atrás dos personagens, documentando o reencontro tantos anos após. O Caldeirão destruído e vivendo cheio de cores e prazer na imaginação do povo, nos bonecos coloridos, nos reisados, nas danças de maneiro-pau, nas emboladas e canções dos violeiros.

 igrea

Caldeirão e Roque Santeiro

 

Depois que comparou com a novela Roque Santeiro (Rede Globo), Dona Maria de Maio, rosto sorridente e rosado atrás dos óculos de lentes grossas, definiu bem a linha do filme de Rosemberg Cariry: “Em Roque Santeiro, eles botam outras pessoas para fazer de conta que é o povo. Mas nesse filme é o povo de verdade que conta a história”. De fato, no documentário longa-metragem cearense sobre o Caldeirão, são os artistas populares, os romeiros, os camponeses sem-terra, que narram os acontecimentos. Os fatos de hoje contam a história passada na primeira metade do século.

Quem fala da história do Caldeirão é o boi armado por Pedro Boca Rica, são os brincantes do Boi Lua Branca, do Guerreiro de Dona Margarida, é a Banda Cabaçal dos Irmãos Anicetos, são os ex-votos de imburana e a romeirada inumerável do meu padrinho Cícero. São os bonecos alegres de Maria das Dores Bernardo, filha de Ciça do Barro Cru. Em barro, construiu, com mais de 500 figuras, toda a epopéia do Caldeirão. As roças de milho, o engenho de rapadura, os comboios de jegues, os carros de boi, a escolinha sob a árvore, os homens, as mulheres sempre prazerosamente trabalhando, as crianças na brincadeira mais inocente e, depois, o massacre. Corpos pelo chão dizimados, ainda vestidos com roupas alegres, mas já salpicados de sangue.

Pelo povo a história do povo é narrada, na linguagem estética de sua cultura. Rosemberg confessa: “Gastei quase tudo o que eu sabia sobre cultura popular”.

 equipe

Mutirão cearense

 

Um grande mutirão cearense, é como pode ser definido o primeiro longa- metragem realizado por cineasta cearense residente no Estado. Uma afirmação de que é possível fazer cinema sem emigra, agora vencida a duras penas a fase das filmagens. Ao todo quase um ano de trabalho, desde a primeira tomada. Quase sete horas de copião, dezenas de depoimentos e milhares de imagens colhidas. Diante da câmera, testemunhas e colaboradores que já morreram, como Jáder de Carvalho, Seu Henrique e Dona Amália Xavier. Vários protagonistas dos acontecimentos, como os generais Cordeiro Neto e Góes de Barros, ou os “caldeirenses” Marina, Maria de Maio e Seu João. Estudiosos do assunto, de reconhecida autoridade, como Eduardo Hoornaert, Diatahy Bezerra de Menezes e Hildebrando Espínola.

No final, a revelação com detalhes e comprovação de um episódio histórico, motivo de orgulho e vergonha para os cearenses. Orgulho por se tratar de uma das mais avançadas experiências de organização popular e econômica agrária já registrada no Brasil. Vergonha, pelo massacre da população camponesa ocorrido, do qual o Ceará em peso foi cúmplice.

Para vencer esta primeira etapa, era preciso fazer um filme do filme. Rosemberg, arrostando todas as dificuldades, com a ajuda da experimentada camera de Ronaldo Nunes e de um grupo de profissionais amigos, arrancou praticarmente o filme da impossibilidade cearense de o realizar. Aprendeu que, para um diretor, é tao importante saber  arranjar finaciamentos,  quanto dirigir filmagens.

 cau

 

 

Deixe um comentário