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A CIDADE DO FUTURO

OU

UMA JOIA RARA DO CINEMA BRASILEIRO

 

 

por Fernando Belens

observações breves de um cara que faz e ama o cinema

 

Foi com um crescente entusiasmo que assisti a esse raro e especial filme. A sua estrutura “pequena”, como pode escrever o diretor Claudio Marques em publicações na internet é de uma propriedade emocionante. O filme tem o tamanho, o desenho de produção e a dramaturgia apropriadíssimos a seu intento. O PEQUENO SE TRANSFORMA NO PODER DE DOMAR DO PEQUENO.

Sou avesso a uma crítica cinematográfica esquartejadora que tenta ver pelas partes a totalidade de uma obra cinematográfica; como também tenho um certo asco das críticas opinativas demais, parece que para ser profissional o especialista queira ver outro filme diferente do que se expõe na tela. Como me confesso hipnoticamente atingido pelo “A Cidade do Futuro”, tenho tido sonhos com fragmentos dele, farei nessa introdução duas pequenas ressalvas à narrativa que tanto me seduziu:

1) A militância  política expressa na cena em que o “medico cubano” realiza a consulta pré-natal em Milla, diminui a potência que estava plenamente presente no ouvir os batimentos fetais; no meu trabalho pretérito como médico da família, pude participar desse momento que tem um dom encantatório em si mesmo, seja o médico brasileiro, argentino ou de Marte; ouvir pela primeira vez um coração aceleradamente nascendo é mágico.

2) Outro momento que entendo como desnecessário é a cena final onde o triangulo formado por Igor, Milla e Gilmar, tocam a barriga da futura mãe, esse ode à família clássica e sua função reprodutora diminui a potência que aqueles jovens representam enfrentando todos os preconceitos para construírem uma relação não convencional; acrescentaria a essa observação a decisão de casar do personagem Igor que até aquele momento resistia à proposta de Gilmar, nada tenho contra o casamento gay, muito pelo contrário, mas acho que qualquer casamento é o início do fim da paixão e depois do amor. Na minha geração, formada no calor do Maio de 68 a postura mais importante era a relação e não as leis que determinam a relação, nossos amantes não eram maridos e/ou mulheres, eram “casos”, efêmeros como é a própria vida.  Quero ressaltar que essas considerações em nada diminui o potencial do filme, ele é muito maior que detalhes que eu acho desnecessários.

Vamos ao filme propriamente dito e sua unidade orgânica:

Ancorado num elenco jovem de grande vigor “”A cidade do Futuro” tece sua narrativa de modo delicado e sutil; elementos do documentário são inseridos de modo eficiente e belo, jamais pensaria em ver beleza em I. Rosenberg, mas ela existe e está lá, não pelo tom laudatório ao regime militar que emana de cada frase dos curtas  que nos irritava profundamente nas sessões onde o cinejornal semanal nos obrigava a assisti-los, mas, e sobretudo pela beleza do povo brasileiro, sua pele, suas roupas, seus calçados, seu movimento, gravada eternamente num preto em branco que os diretores trabalharam num sépia belíssimo. Paralelo a esse documento de arquivo, o filme insere aqui e ali elementos de docudrama onde depoimentos de personagens que existiram naquele ontem documental recuperam suas falas no hoje cinematográfico; e explode na cena em que Igor, representante de uma funerária vai vender planos a dois idosos, que devem ser antigos moradores de Sobradinho. A verdade crua de um jovem falando sobre a morte e o rito da morte com dois personagens naturais bastante idosos, tem um humor corrosivo e um claro embasamento artaudiano: a dificuldade do personagem em ”vender ”a morte é subitamente transformado em humor com a fala da senhora que como todos nós vai morrer, e que diz mais ou menos algo assim “é bom isso, pois o morto vai mais bonitinho”. Sublime cena.

Outra cena que costura metáforas imprescindíveis é a do peixe que não se sabe de onde surge, colide com a moto e arfa na areia a procura da perdida água. Angustiante e vital

A cidade retratada transpira verdade: a música, o encontro dos jovens no bar, boate e piscina, a resistência das famílias, a coexistência entre animais de transporte e de carga com motos, carros e bicicletas nos conduz a um espaço atual e caótico: é o sertão arcaico permanecendo entre as fímbrias do presente que teima em acontecer. E no final o desejo compartilhado vence, falo em desejo e não de amor, porque a cena, extremamente delicada, do sexo casual entre Igor e um desconhecido, atira os significados para além da mera ordem instituída, que seria do espaço da família, para além do desejo que entendo ser o motor maior da película.

Finalmente não poderia deixar de citar os créditos finais do filme: é impactante ver que uma equipe tão compacta e sintética pode fazer quando todos estão jogando a favor, é a menor e mais competente equipe que pude assistir em um filme brasileiro há muito, muito tempo.

A Cidade do Futuro faz parte desses particulares filmes que desejamos rever, rever, rever.

FICHA TÉCNICA:
Direção e Produção: Claudio Marques e Marilia Hughes
Elenco: Milla Suzarte/ Gilmar Araújo / Igor Santos
Roteiro: Claudio Marques (baseado nas vivências dos atores e atriz natual)
Montagem: Claudio Marques e Joana Coller
Fotografia: Gabriel Martins
Som/Edição som/Maquinaria/Elétrica: Jucelino Pinto
Direção de Arte: Carol Tanajura
Figurino: Diana Moreira
Direção de Produção: Michele Perroni
Ano de Produção: 2016
Cor/ 75 minutos

 

Um Comentário...

  1. Deus Carmo disse:

    Muito interessante sua crítica, muito pertinente, principalmente no apontar algumas contradições da história. Certo que uma resolução burguesa pode enfraquecer o tema, mas nem sempre a beleza da imagem. Aí uma questão de ideologia.

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