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por Orlando Senna

 

 

Guardo muitas imagens e emoções da Jornada da Bahia, colhidas nas muitas edições a que compareci nessas três décadas de sua existência e gravadas em luz e som tanto na minha consciência como no meu coração — embora o grande Bola de Nieve, cubano, negro, gordo, revolucionário e gay, cantando versos de Adolfo Guzmán, diga que “no se puede tener conciencia y corazón”. Mas o imenso Bola de Nieve, de quem Guido Araújo é fã de ajoelhar, se referia à paixão (“no puedo ser feliz si no te puedo olvidar, he renunciado a ti ardiente de pasión”) e o meu caso com a Jornada é de platônico e lírico amor, onde coração e consciência se confundem. Pois, guardo imagens e emoções indeléveis como, tenho certeza, todas as pessoas de olhos, ouvidos e poros abertos que frequentaram e frequentam essa festa de humanismo e resistência, dádiva e obsessão, arte e política. Possivelmente essas pessoas e eu compartimos inúmeras dessas emoções e imagens e, portanto, algumas terão viva na memória o episódio que logo será revelado. Disto se trata, de uma dessas emoções que se transformaram em lembrança inapagável e cujas sensações e arrepios daquele momento voltam quando as recordamos (como agora).

O episódio ocorreu há uns dez anos e à sua carga dramática e surpreendente soma-se uma aderência simbólica que só percebi depois, quando a emoção deu lugar à reflexão, quando o coração cedeu passagem para a consciência. O que aconteceu naquela noite, dez anos ou mais atrás, traduziu compactamente em sessenta minutos o espírito da Jornada, de toda a sua história, de sua filosofia, de sua generosidade e criatividade, de suas dificuldades e superações, de sua vocação para radicalizar e resistir, de seu sonho e luta por um mundo melhor. Conto, mas antes de contar a musa me manda dizer que devo (devemos) esse e outros momentos de aprendizado, conscientização e prazer a Guido Araújo, tão pródigo em risos e lágrimas. E que Guido Araújo é um herói, é o herói dessa história.

Era a noite do encerramento e estávamos todos preparados para a cerimônia programada na Reitoria da Universidade Federal da Bahia. Já estávamos reunidos no hall do Hotel da Bahia para sair quando aparece Guido, bem mais nervoso do que o seu normal em noites de encerramento. A Reitoria havia negado, em cima da hora, ceder seu rico espaço para a entrega de prêmios da Jornada. Todos os jornadeiros estamos acostumados a esses imprevistos e intempéries que acometem o evento, mas daquela vez a tarracha apertou, não havia lugar para a festa, a Jornada não ia encerrar, ficaria na história como a Jornada que nunca acabou. Choro, gemidos, aflição e Guido acende os olhos, uma lâmpada invisível flutuando sobre sua cabeça: “vamos fazer o encerramento em praça pública”.

E fomos todos para o centro do Campo Grande, aos pés do monumento ao Caboclo (um índio matando uma serpente, alegoria da guerra de independência da Bahia) e aí aconteceram os discursos, a premiação, as brincadeiras e os aplausos. A Lua estava enorme, linda, e os transeuntes e namorados se aproximaram para ver que comício era aquele, ou que pregação religiosa tão sonora e colorida era aquela, e foi se formando um público numeroso, curioso e respeitoso. A platéia popular se juntou aos jornadeiros e formou uma só, aplaudindo e gritando e se divertindo como se pertencesse àquela comunidade, como se gente de cinema fosse. E naquele momento era. Naquele momento mágico, tão fugaz no tempo e tão eterno em mim, o mais sensacional encerramento de festival que Oxumaré, a serpente arco-íris, o orixá do cinema, me concedeu.

 

20/08/2010

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