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Por Sylvio Back

 

O escritor alagoano, Graciliano Ramos (1892-1953), é um autêntico “gênio da raça”, como se diz popularmente. Enaltecido pelo público e pela crítica como um dos maiores romancistas brasileiros, Graciliano Ramos tem sua polêmica biografia pela primeira vez transposta para o cinema no docudrama, “O Universo Graciliano”, de Sylvio Back. Uma abordagem existencial com fundo moral e político, dentro de uma linguagem instigante que mescla memória, história e obra, o filme procura desvendar a alma do criador e suas múltiplas criaturas. A estrear nacionalmente no segundo semestre, “O Universo Graciliano”, 12º. longa-metragem de Back, a convite da direção da Feira Literária de Paraty, será exibido, devidamente legendado em inglês, para o público e convidados estrangeiros, já que Graciliano Ramos é o autor homenageado do evento.

Todo filme engendra sua própria história. Como se fosse uma espécie de second life permeando o próprio roteiro e as filmagens, e aquilo que, selecionado e montado, irá faiscar na tela. Com “O Universo Graciliano”, sem premeditação alguma, as crônicas que precederam e presidiram as pesquisas literárias e iconográficas, de campo e as entrevistas, trazem à tona um Graciliano Ramos que extrapola qualquer tentativa reducionista. Simplesmente, porque se trata de persona assumida, tanto por ele em vida, como pelos contemporâneos, e repicada pela posteridade.

Cada depoimento embute tal volume de emoção, comoção e estranhamento, que os retratos falados, revelações e inconfidências detonam falácias e mitos que por décadas balizam vida-e-obra do escritor. São atos & fatos surpreendentes em torno de seu temperamento tanto irônico e carrancudo, quanto sedutor e às vezes, até misantropo. Soberbos contornos redivivos em que a memória e a amnésia homenageiam a argúcia de quem lhes bebe a verdade poética. Uma invisibilidade em que o passado é o que a mente de cada um captura e reescreve a seu bel prazer. É truísmo que o filme da mente não mente jamais!

Pedra fundamental

Como e quando tudo começou? Em que momento Graciliano Ramos teria me conflagrado a ponto de hoje eu assinar este resgate existencial, por todas as razões, inescapável da minha própria biografia? Sim, antes de cineasta, eu sonhava ser escritor. Na verdade, como anunciavam os diretores-inventores da Nouvelle Vague (Jean-Luc Godard, Louis Malle, Claude Chabrol, François Truffaut), ao longo dos anos 1950, cineasta seria alguém que “escreve com a câmara” (caméra-stylo (caneta). No fundo, a fada madrinha do cinema já estava de olho em mim!

Naquela época eu morava em Paranaguá, litoral do Paraná, onde a família tinha um hotel (não é à toa que “Aleluia, Gretchen”, meu terceiro longa-metragem, de 1976, se passa num hotel…). E, como se estivesse escrito, ora direis, a única livraria da cidade expôs na vitrina os quatro volumes, com capa dura cor de vinho, o também único conjunto da obra póstuma (1954) de Graciliano Ramos, “Memórias do Cárcere”. Minha mãe, inveterada leitora, curtindo meu desejo literário, foi lá e, de surpresa, com aquele belo sorriso do gozo intelectual, me presenteou o inesquecível acepipe. Desde então, Graciliano grudou na memória, na retina e nos fotogramas.

Agora, fico ruminando o que aquela alemoa apaixonada pelo Brasil diria vendo esta minha declaração de amor e destemor em “O Universo Graciliano” ao controverso escritor alagoano, tão telúrico quanto universal!

Incompletude

A sensação de incompletude é recorrente em todo autor, em especial, quando o projeto se defronta com multifacetada personalidade moral, afetiva, intelectual e política como a de Graciliano Ramos. Do “nascimento” como romancista e homem público (prefeito de Palmeira dos Índios), à sua inusitada prisão e deportação de Maceió em 1936, a permanência e morte no Rio de Janeiro, seu cotidiano é marcado por tragédias e polêmicas. Parecia ser uma espécie de dublê fake de si mesmo. Talvez o meu filme consiga transmitir esse sentimento que foi me conflagrando já quando estudava sua obra e relatos sobre o autor, até a oitiva de uma vintena de pessoas, direta ou indiretamente, vinculada a ele. E isso fica nítido ao se ouvir quem o frequentou durante décadas como pessoa, ou, por osmose, quem tenha se apaixonado pelos personagens seminais de “São Bernardo”, “Angústia” e “Vidas Secas”. É que ele deixou uma obra sólida e incólume, inoxidável às intempéries político-ideológicas de seu tempo.

Em “O Universo Graciliano” é por essa senda que o filme se imiscui, articulando preciosa iconografia fixa e em movimento, música de compositores alagoanos, na tentativa de vasculhar rastros, sombras e escombros memoriais, onde verdades e mentiras se embaralham, sobre a maior esfinge da literatura brasileira.

 

 

capa; quadro A viagem, de Pierre Chalita

 

Um Comentário...

  1. Heloisa Arthur Maciel de Castro Gomes disse:

    Gosto muito do Sylvio Back.Hoje mesmo vou rever no Sesc em BH ,MG, ao seu incrível filme ALELUIA GRETCHEN.
    Gostaria de imprimir esta matéria para arquivar e não consegui. Att,Heloisa.

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