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Por José Araripe Jr.

 

Para se avaliar uma cinematografia, o todo pode ser importante, mas cada filme tem sua história e sua proposta. Mesmo os movimentos auto-rotulados ou pós-rotulado, possuem um tanto de diferenças entre seus “produtos”. Estes manifestos às vezes nascem depois de uma descoberta de similaridades e afinidades, ou vão amadurecendo para se enquadrarem numa proposta de unidade.

Posso citar 3 movimentos conhecidos: Nouvelle Vague, Cinema Novo e Dogma. Cada qual com características prévias, adaptadas, assimiladas e adequadas à extensão de suas identidades, seja por seus protagonistas, seja por seus críticos.

O manifesto do Dogma, o mais recente deles, possui mais que conceitos ideológicos ou estéticos, trouxe proposições de uso de baixa tecnologia com limites técnicos para a execução da obra. Valores e méritos à parte. O que podemos identificar de semelhança entre estas “escolas” é que não se limitaram em gêneros. Os gêneros em sua raizes mais à grega podem ser simplificados em tragédia e comédia. Porém, o melodrama hoje já é considerado por muitos, a terceira perna do tripé. Os demais gêneros – dezenas de combinações destes – seriam sub-gêneros, inclusive a tragicomédia.

Voltando ao início do raciocínio, posso dizer que para se observar um filme com intenção de conhecê-lo além da fruição do primeiro contato é fundamental entender seu gênero e sub-gênero. As combinações podem ser tantas que um novo sub gênero pode surgir à frentes de seus olhos à qualquer momento. Cito um filme recente: Passione, filme italiano do ator Jonh Torturro.

É raro, mas a capacidade criativa do homem sempre surpreende. Há quem diga que de tempos em tempos um grande filme inaugura sub-gêneros que são “imitados” por um bom tempo. Nos primórdios do cinema, ainda bem no início, dois movimentos já dividiam paixões: o realismo e o formalismo.

A grosso modo poderíamos dizer que esse dois ramos – não gêneros – desaguaram nos tipos: ficção, documentário e experimental. Hoje a simbiose entre eles acontece em muitos filmes, mas o gênero, ou os sub-gêneros que me refiro, estão ligados ao modo dramatúrgico do cinema narrativo de ficção, o que opta por contar um história e utiliza-se conscientemente ou não de arquétipos da ancestralidade oral ou escrita.

João Rodrigo e o protagonista Lucio Lima em Mar Grande

 

A cauda do pavão

As artes: artes plásticas, literatura, música, artes cênicas são os elementos fundamentais para realizar a linguagem cinematográfica em suas experimentações narrativas de tempo e espaço, mas sempre à serviço do gênero ou sub-gêneros definidos para narrar a história. Uma comédia, ou uma tragédia unidas na mesma narrativa podem ter por exemplo a forma final de um musical.

A Cinematografia de um país como o Brasil por sua extensão continental sua formação multiétnica e cultural, tende a ser múltipla em gêneros e sub-gêneros. Se a industria cinematografica do país se pautar por pesquisas decerto que irá praticar gêneros diversos não de forma intuitiva ou espontânea, mas “adredemente” preparados para atender às demandas mercadológicas. Aqui de forma empírica ou intuitiva, a pequena industria cinematográfica reflete a diversidade das culturas originais, colonizadas e miscigenadas. Ainda bem.

Mas não é tudo no que me interessa refletir. Refiro-me à (in)consciencia do autor do roteiro em dominar o gênero ou sub-gênero a que se propõe. Consequentemente ao espectador cinéfilo convêm também ampliar seu repertório de entendimento para que saiba identificar no estatuto da obra essa proposta. Ser capaz inclusive de não gostar, mas preparado para apontar onde o “frankstein” o incomodou.

Luis Pepeu como Consciência

Vejamos: na ópera, a forma teatral, que pode ser citada como matriz do cinema musical citado há pouco, o espectador num contato de primeira viagem tem dificuldade em fruir, já que não é corriqueiro na cultura brasileira do dia a dia.

Gêneros como os musicais de Bollywood nos parecem tão estranhos e são de difícil assimilação. Um filme que fez muito sucesso na Bahia “Ó pai ó” oriundo de uma obra teatral trafega em vários sub-gêneros, inclusive o indiano. Misturar sempre é difícil.

Everton Costa como Fuleirinho

 

Trampolim do Forte

Recentemente assistí a um filme baiano – sim, sei, filme nacional, porém baiano, pois se propõe a contar uma história urbana, mas com características culturais e geográficas que moldam seu dna inconfundível. Filme visceral e dinâmico, parte de uma lenda urbana do anos 90 para estruturar seu argumento. A pixação jocosa e misteriosa grafadas nos muros da cidade do salvador inspirou o autor para construir o seu sub-gênero: a crônica policial.

Sobre tudo que vemos existe um narrador de fora que conduz a história: o rádio, com seu poder de espalhar uma notícia ou de reforçar o pânico. É realista, hiper realista também, mas é antes de tudo espetáculo, pois estabelece um acordo fabular para quem o assiste. O tanto documental que recheia o ambiente onde se dá o drama não o faz documentário.

Sua principal proposta de roteiro é cumprida com louvor; convida o espectador para viver o drama de crianças que são ameaçadas por diversos vilões, e faz com muita envolvência e competência. Como é fundamental na crônica policial, a narrativa em muitos momentos assume ares de trilher de ação e traz velocidade e suspense para que se viva intensamente os conflitos.

A construção dos personagens das crianças denotada no comportamento e falas, flui com pureza e também com a dureza necessária, surpreendendo sempre. Os personagens adultos quase todos vilões, e quase como numa história em quadrinhos são bidimensionais e se aproximam de estereótipos clássicos. Estariam deslocados num sub-gênero de exigência mais naturalista, mas funcionam para criar o antagonismo e gerar a empatia e antipatia que se deseja dos bons e do maus numa aventura que envolve tanta violência social.

É universal a história, sim. Mas é óbvio que em seu locus principal, em Salvador, terá leituras mais sobrepostas.

Manu Santiago como Bel Prazeres

 

Verdades e mentiras

Às vezes o espectador como testemunha ocular de seu tempo não se vê ali, porque procura a verdade absoluta, fiel, essa que não existe na vida, nem em reality shows, ou tão pouco no cinema. Em seus mergulhos literais ou em seus mergulhos fotográficos, o filme Trampolim do Forte dirigido por João Rodrigo Mattos, fotografado por Pedro Semanovschi e montado por Bau Carvalho, oferece ao espectador um retrato de parte do caos urbano, carregado de muitas matizes líquidas:

o mar que é o bálsamo na baía, também pode ser o turbilhão que aproxima a morte. A saliva sagrada da bondade pode ser o veículo do veneno da madrugada. O red bull da cidade da alegria pode ser um inferno na franja da aparente calmaria da sua principal praia. Há síntese, há compactação e há denuncia no filme que também se pronuncia engajado, quando deixa claro de que lado está nesta guerra social.

É óbvio que qualquer somatória de gêneros serve para estabelecer o rumo onde o roteiro se pretende coerente para narrar o seu drama. Numa ficção ao contrário do documentário – que se assemelha ao jornalismo como apresentador de “notícias” da vida real, o jogo se assemelha ao teatro, não é a toa que atores são “players” na língua de Shakespeare. Trampolim escolhe os seus, e segue firme.

Wilson Mello como Papai Garotão, o seu ultimo longa (in memorian)

 

Mergulho e caldo

Fui convidado a jogar o faz de conta em grandes saltos nos trampolins desta crônica policial contemporânea, diluída no medium da química fina dos mêdos infantis, e o efeito foi físico: em sua plenitude – muitas qualidades e poucos defeitos – o filme é poderoso e criativo, brinca, mas com fogo, e queima nossas entranhas, deixando pouco espaço para acreditar em soluções paliativas.

O tecido social deste universo construído e reinterpretado, está esgarçado e talvez nem todo o sal do oceano, ou todo o amor materno possam redimir. Mas como na vida dos contos de fadas, o cinema também acende faróis, e o talento insofismável deste atores mirins e adultos nos excitam para ouvir ou contar cada vez mais histórias com paixão e garra. Independente das tormentas que estejam por vir.

Trampolim do Forte, fiquei fã, em gênero, número e grau.

 


Um Comentário...

  1. Filipe disse:

    Onde encontra o filme? Grato!

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