Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Vazante, de Daniela Thomas

 

 

MANGUE BANGUE DO BRASIL ESCRAVOCRATA, VAZANTE EXPÕE O FINO DA BOSSA NARRATIVA DE DANIELA THOMAS

 

 

por Rodrigo Fonseca

 

 

Preto e branco é linguagem: no léxico da monocromia, Vazante desperta as cores da fúria. Há um plano, neste primeiro longa-metragem de direção solo de Daniela Thomas, no qual um fazendeiro português nos faz enxergar o controle (o poder senhorial) como um fardo trágico, ao olhar para a plantation em sua volta, fitar a casa grande na qual vive e perceber a massa negra que o serve, de cabeça baixa, sem entender bem como e por que chegou àquele lugar. O tal patrício, António, é sujeito de posses: tem terras, hortas, gado, escravos. É a representação clássica da força feudal. Um suserano que teria tudo à mão para oprimir seus vassalos. No entanto, o esgotamento existencial de António, toda a sua exasperação moral e muito de sua respiração esbaforida demonstram sua incompatibilidade com aquela ordem. Temos diante de nós um homem nu, um homem que sofre: mas, por ser das altas castas, seu sofrimento custa a ser digerido (e comungado). Na tradição cinéfila, passa-se com ele o mesmo que com o executivo vivido por Paulo Villaça em Mangue bangue (Neville d’Almeida, 1971): esse larga tudo, Bolsa de Valores, e se enlameia para buscar uma reconexão com seu lado animal. A animalidade do português a quem Daniela radiografa não chega a se concretizar. Os quilos de convenções sociais que pesam sobre ele não permitem. E menos ainda permite a arquetipificação que uma certa sociologia brasileira faz dos personagens de nossos filmes. António é rico. É difícil fruir da dor dos ricos, ainda que ela seja a porta aberta para uma humanidade. E a porta que se abre com este vigoroso filme é para toda a crueldade que alimenta a riqueza, historicamente, começando pela exploração e pelo racismo. Eles estão ali como satélites de uma dor estruturante. Mas satélites também chamam atenção no espaço. E muita.Assado numa fogueira de tensões éticas, desde sua exibição no Festival de Brasília, no dia 16 de setembro, na fervura máxima de ânimos inflamados, Vazante, de Daniela Thomas, já pode incluir em seu currículo de vivências um Candango simbólico. Venceu na categoria “melhor catalisador”, tanto no que diz respeito ao debate racial quanto ao que tangencia a discussão sobre exercícios de poder. Já se falou pela Europa que o filme é uma espécie de “Lucrecia Martelmeets Casa grande & senzala”. Mas para Brasília essa comparação não pareceu boa: pareceu indigna, até. Tudo bem… Há qualificações mais adequadas à ciranda de argumentações que ele, conscientemente, gera, sobretudo nas cenas em que Fabrício Boliveira aparece, engolindo cada plano no papel de um feitor com ecos de capitão do mato alheio às lealdades de sua raça. Sem jamais perder a elegância – e, mais importante, o foco crítico –, a cineasta deu conta das provocações e cobranças com as quais seu filme – caracterizável, no entanto, como um retrato cru para a exploração do trabalho escravo negro no país, no século XIX – foi recebido pela plateia do evento. Foi uma conversa dura, mas rica. Uma conversa que seguiu por semanas. Jornais levantaram o debate, sites o contagiaram com o tétano da provocação e a própria cineasta respondeu na revista Piauí.

Cada palavra dessa querela abriu cabeças. No papo de Brasília, houve mulheres negras e homens negros que protestaram contra a visão branca no centro do “discurso fílmico” e na escolha de uma personagem branca (adolescente) no cerne da dramaturgia.

Reclamou-se de uma visão normativa clássica. Ficou no ar a hipótese de um whitewashing (branqueamento) dramatúrgico. Daniela ouviu, lamentou-se pelos incômodos que pudesse ter gerado, mas deixou evidente que aquela narrativa vinha do único lugar que, por direito, pode ocupar: o de narradora branca. Mas uma narradora que mexe nesse tema não com o intuito de construir um senso definitivo e sim de gerar dialéticas, conversas. Por isso, Vazante não é um filme de catarses: é um filme de indignações. E reside aí (e em vários outros lugares estéticos) sua grandeza. Uma grandeza que lacrou para o longa elogios em sua passagem pela Berlinale, em fevereiro de 2017, e dois Candangos no próprio certame de Brasília: saiu de lá com os troféus de atriz coadjuvante (Jai Baptista) e direção de arte (para Valdy Lopes).

Seria leviano chamar de “ataque” as intervenções de parte do público, feitas durante o debate do longa-metragem, em especial por uma variável de “legitimidade” trazida por atores, críticos e realizadores negros que se incomodaram com o olhar adotado pela diretora. Mais leviano ainda seria desqualificar essas intervenções pelo tom por vezes “exaltado” (iracundo) de muitas delas. Vazante é um filme sobre paixões e Paixões – sobre amores e crucificações. Logo, é normal que paixões de igual ou maior pujança do que as que ele expõe se façam notar.

Quando lançou Lili Marlene (1981), o alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) foi acusado de estar alimentando a alienação cinéfila numa era de conversão da História, de espasmos pós modernos. Sua resposta: “Eu fiz um filme sobre o amor, e o amor não se verga sob ventos políticos, o amor é e está quando quer”. Vazante é, também, uma história de amor, que chega num momento de pleitos sobre lugar de voz, sobre representações que não permitem alteridades. Normal ser recebido assim: é de sua natureza. É da vocação autoral de uma realizadora cuja obra cinematográfica flerta com o trágico, vide Linha de passé (num gol esperado que não se vê), vide Terra estrangeira (num idílico esfumaçado em vapor barato), vide o belo Insolação (no sucateamento da utopia). Foram filmes feitos em parceria (dois com Walter Salles e o último com Felipe Hirsch), mas com as entranhas dela amalgamadas em cada um deles.

O único cuidado, após o bem-vindo debate deste 17 de setembro em Brasília – um dia após a exibição do filme no Festival –, é não deixar que as cobranças e os senões esvaziem a importância do trabalho de Daniela. E isso não apenas por suas múltiplas virtudes de artesania, de técnica, mas por sua radicalidade ética na denúncia da erosão moral – a de ontem e a de hoje. Existe nele, à parte da cartografia de práticas escravocratas, uma crueza estendida para a discussão que a diretora gera sobre o machismo institucionalizado. Isso se expõe na união forçada entre uma (já citada) adolescente, Beatriz (Luana Nastas), e um fazendeiro quarentão, António (vivido pelo ator português Adriano Carvalho, cujo ferramental cênico vasto virou o assunto do Festival de Berlim, quando o filme teve sua primeira exibição popular, abrindo a Mostra Panorama).

António trata sua jovem (e põe jovem nisso) mulher como posse. Mas, sob aquela relação, há que se notar acesa uma chama de melodrama, que parece improvável, mas não impossível, em meio a uma massa de signos descortinada numa reconstituição de época. Beatriz fica na fazenda, à espera do marido, rodeada por fiéis negros, incluindo um menino que vai mexer com seu coração. O melodrama nasce sob os estalos do chicote e o arrastar de correntes. Ele não teme claustros. O melodrama é tudo aquilo que não cabe no épico, nem é divino o suficiente para servir de educativo ao trágico. O melodrama é o espaço impuro do que não é planejado, do que escorre pelas frestas da História, do que desafia interditos. O melodrama é… o que vaza. É a Vazante maiúscula de relações que não podem ser mensuradas pelos impasses racionais. O melodrama é a assinatura da humanidade que perfuma o olhar de Daniela sobre práticas irracionais de imposição de força. O melodrama é o ethos do desafio e do desterro. É o terreno que não comporta carnavalizações nem ciências exatas, nos fazendo lembrar que Vazante não é um tratado de sociologia, mas sim uma obra de arte. Há, contudo, nele, um lugar para o deslumbramento, que vai para a conta do fotógrafo peruano Inti Briones (de Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang, de Walter Salles, 2014). Em sua visita à crueldade do passado brasileiro, Inti constrói um preto e branco de plasticidade requintada, dialogando esteticamente com a cor do minério de prata, presente na região mineira onde se deram as filmagens. A natureza quase apolínea dessa fotografia dá ao filme uma textura clássica, mas não uma postura educativa.

Vazante não veio para ensinar, veio para fazer falar e fazer pensar. E merece respeito para que suas contusões simbólicas doam na medida e nos alvos certos. É um filme feito para gerar uma comunhão de indignações, mas contra os algozes precisos. O mesmo que houve com ele em Brasília deu-se, em igual medida, no Festival do Rio, com Açúcar (Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, 2017), que também expõe chagas do racismo. São filmes que ardem. Mas são filmes que ficam.

 

 

publicado em filmecultura

Deixe um comentário