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VERDADES E MENTIRAS DOS BASTIDORES DA PREMIAÇÃO

 

por Carlos Reichenbach

 

A decisão de dividir o prêmio de melhor filme com o documentário SAMBA RIACHÃO, sugerida por um dos colegas, foi a primeira tomada unanimemente pelo júri.

Como bem apontou um dos jornalistas paulistas em sua visão crítica da premiação, todo mundo enalteceu o impacto popular do filme baiano, mas no fundo, nunca se acreditou que levasse o “candango” de melhor filme.

A decisão de premiá-lo com antecedência, independente da escolha do filme de ficção ex-aequo, visou evitar a solução óbvia do notório “prêmio de consolação” conhecido como PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI, que normalmente é concedido ao documentário como se o gênero estivesse sempre relegado à condição de segundo plano.

Falavam tanto, à boca pequena, de uma certa postura “arrogante” de Luís Fernando Carvalho, desde os primeiros dias do evento. No entanto, vieram dele as reações mais elegantes que se seguiram à entrega dos prêmios.

A própria mídia, que soube ser delicada com o novo filme de Suzana Amaral (nos bastidores, as reações de decepção eram quase unânimes) não soube compreender a impossibilidade de mesurar na mesma balança, o documentário “quente”, eficiente e popular com a obra de arte de viés trágico.

 

Sim, LAVOURA ARCAICA é um grande filme; daqueles que surgem de tempos e tempos para fazer a história da arte cinematográfica.

Com toda a simpatia por Jorge Alfredo e seu personagem, o sambista Riachão, um prêmio especial do júri, estava (para mim) de bom tamanho. Mas sou obrigado a concordar que concedê-lo seria uma enorme babaquice; uma obviedade que Antônio Abujamra vaiaria com ênfase.. Melhor não dar nada … mas aí seria injusto … É fogo…

Confesso: defendi os prêmios dados ao filme gaúcho, NETO PERDE SUA ALMA (que considero emocionante e necessário), assim como o jurado baiano os do documentário conterrâneo.

Dois filmes (um longa e um curta) dividiram radicalmente a opinião dos jurados: O INVASOR, de Beto Brant, e SEU NENÊ, de Carlos Cortez.

Consenso ? Somente para as qualidades flagrantes e definitivas (e óbices ao tempo excessivo) de LAVOURA ARCAICA, o rigor prospectivo e poético de GLAUCES-ESTUDO DE UM ROSTO, as interpretações de Sabrina Greve, Paulo Miklos, Leonardo Medeiros, Juliana Carneiro da Cunha, Fernando Ernesto, Debora Falabella e a delicadeza e originalidade de RETRATO PINTADO.

 

É bom que se saiba que O INVASOR não fez a unanimidade entre o público feminino. Aliás, o filme primou por reações extremadas. Elogiou-se a sua modernidade de um lado, atacou-se a descarada estética de video-clip de outro.

Minha opinião pessoal sobre O INVASOR pode ser sintetizada numa afirmação: de todos em concurso é o que irei rever com mais entusiasmo. Assim como Carlos Cortez, Beto Brant filma bem p´ra cacete.

Como defendi, com unhas e dentes, ao lado de outros dois jurados, o prêmio de melhor diretor para Brant no longa, gostaria de ter dado o premio equivalente ao curta, para Carlos Cortez. Aliás, que elegância teve este senhor ao receber o prêmio de melhor técnico de som para seu curta metragem. Fez jus ao sobrenome. Merecia muito mais.

Falando em elegância e inteligência, impossível não deixar de citar a classe do ator Fernando Eiras, no discurso de agradecimento ao premio de melhor roteiro concedido para o filme de Júlio Bressane, DIAS DE NIETZSCHE EM TURIM.

Para aqueles que criticaram esse prêmio, informo (e assumo) que fui eu quem o sugeriu. As razões que me levaram a isso, eu explico. É sabido que Bressane fez este filme quase como uma dedicatória à sua mulher Rosa Dias, que vem estudando a obra do filósofo há muitos anos. Bressane partiu da seleção e transleitura de Rosa em sua aventura pelos últimos dias da vida do visionário (pelo menos foi o que ele confidenciou em nosso encontro no ano passado em Roterdã, Holanda). DIAS DE NIETZSCHE pode não ser uma obra tão transcendente quanto OS SERMÕES, O MANDARIM ou SÃO JERÔNIMO, mas dá seqüência com grandeza ao inventário poético de Júlio Bressane. Se eu pudesse premiar o corte mais sugestivo de todos os filmes apresentados, contemplaria o magnífico plano dos seios femininos confrontado com o das montanhas gêmeas.

Dos prêmios que deixamos de dar, sinto não ter forçado mais a barra com a ideia de um Prêmio Especial do Júri, ao ingênuo e delicado ZAGATI, de Edu Felistoque e Nereu Cerdeira. De todas as minhas derrotas sofridas no seio do júri de Brasília 2.001, essa foi a mais doida.

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