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por Jorge Alfredo

 

No verão de 1993 aconteceu um fato muito significativo para o cinema baiano; mesmo sentindo as fortes conseqüências da interrupção da atividade cinematográfica com o fechamento da Embrafilme, seis realizadores decidiram se reunir na Ilha de Mar Grande para, juntos, criarem um roteiro de uma longa metragem; Moisés Augusto, Fernando Belens, Edgard Navarro, Pola Ribeiro, José Araripe Jr. e Jorge Alfredo. Foram dias intensos e de muita interatividade entre cabeças de diferentes formações em torno de um ideal comum; levar para a tela grande as nuances e matizes, trejeitos e esquisitices dessa gente de ginga inconfundível dos becos e ruas de pedras seculares do Pelourinho; ícone da tradição cultural soteropolitana. Desse encontro surgiu o ainda inédito “Via Pelô”, que no meu entender, desencadeou o movimento de retomada do cinema baiano.

Infelizmente, nossos super egos e a falta de recursos não permitiram que o projeto fosse adiante, mas creio que a partir desse encontro, todos nós, individualmente, mas sempre com a colaboração afetiva e/ou profissional dos outros cinco, intensificamos esse desejo com muita obstinação e conseguimos, juntamente com outros cineastas, realizar nesses últimos anos dezenas de filmes, fazendo com que a Bahia experimentasse um novo ciclo de produção cinematográfica. Seguem, abaixo, alguns trechos desse roteiro coletivo, ainda em forma de escaletas desenvolvidas.

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Mestre Guaiamum chega ao cais. Luta de capoeira. Comemoração no boteco com os cinegrafistas e o amigo jornalista.
Existem muitas estórias a respeito de Mestre Guaiamum contadas na rampa do Mercado e no cais do Porto. Americanos do norte já vieram para vê-lo lutar e pagaram muito caro pela exibição do velho lutador. Certa vez, um amigo seu, jornalista e escritor, foi espera-lo na rampa acompanhado por dois cinegrafistas que queriam filmar uma luta de capoeira entre Guaiamum e outro capoeira renomado. Guaiamum chegara de uma pescaria – 10 dias no mar –  ainda nos olhos um resto de azul, e no rosto um resto de vento sul. Ao ouvir a proposta do amigo logo se prontificou. Dirigiram-se à Feira de Água dos Meninos. A luta começou soberba e os cinegrafistas se deliciavam com a forma com que Guaiamum, na sua ginga inconfundível, se desviava dos golpes, e como que por magia, abruptamente, atingia o adversário. E quando o derrubava, esperava que ele se levantasse para continuar a luta.

“Não bato em defunto.”

E a luta continuava bonita de se ver… De repente, – “meia lua inteira, sopapo na cara do fraco”  – e a luta terminou. O outro capoeira estendido na areia… Guaiamum com um sorriso do tamanho da cara. E olhe que ele já tem carapinha branca! Um dos cinegrafistas chegou pra ele e perguntou quanto era, e Guaiamum respondeu uma quantia absurda na sua língua atrapalhada. Fora a quantia que os americanos haviam lhe pago recentemente para ve-lo lutar. O seu amigo  interveio e explicou ao Mestre que aqueles eram artistas brasileiros, gente também simples, cinegrafistas que admiravam a capoeira e queriam divulga-la para o mundo. Mestre Guaiamum fez um gesto de compreensão e disse: Então não é nada! Vamos ali no boteco comer um vatapá, beber uma geladinha, que  hoje quem paga sou eu!

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Jeep passa buzinando e é interrompido por um policial militar que o segura, ao tempo em que um oficial mande ele circular. A alegria de Jeep não consegue quebrar a sisudez e o clima gelado dos policiais e poucos paisanos que tomam a porta do necrotério. Sobre o rosto dos soldados ouve-se em off o papo cúmplice de Percivaldo.
Os homens já falaram que quem não estiver satisfeitos, pode ir embora.
Um capitão lutando contra o exército. Agora vai ficar quieto.
E não vai adiantar mexer nele Teófilo. O único metal que ele tem no corpo é chumbo.

“Chumbo grosso, pesa.” Ironiza Teófilo

Os companheiros dele não vão vir para o velório.

Eles até sumiram da área.

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Na cozinha da casa dos Nogueira, Liú está pensativa na beira do fogão. Os afilhados de Anamelia rodam em torno da mesa da cozinha, fazendo algazarra. Panelas fumegantes dão um clima de sonho a cena. Um dos meninos esbarra nas pernas de Liú, se agarrando a sua saia.

Liú

– Menino, Diabo…me deixa.

Afilhado 1

– Liú voce tambem vai com a gente pra praia? Madrinha vai levar a gente pra Arembepe pra tomar banho de mar…(Liú fica paralisada com a referência ao mar) Liú, ô Liú, Liú…vamo tomar banho de mar Liú…

O Afilhado 2 tambem se achega pra Liú, que comovida com a lembrança do passado, senta com os dois meninos no colo. A fumaça das panelas cria uma bruma e clima pro flash-back.

Liú
(Com os olhos cheio d’água)

Ai meus filhos o mar…foi no mar…meu filhinho…

Num dia de 1950 Liú amamenta seus filhos gemeos. Ao pé do radio D. Menina escuta apavorada a noticia do eclipse total do sol. Nogueira chega trazendo Liú com os dois meninos, tira Lionel do berço e entrega a Liú pra amamentar. Passagem de tempo. D. menina ajoelhada no altar dos santos faz promeças…

D. Menina

–  Meu Deus do ceu…o sol vai apagar…é o fim do mundo…eu vou ficar velha…velha…quem não morrer vai ficar velho…meu Deus…dou tudo pra não morrer, nem ficar velha…dou um dedo…ai meu dedo…sou capaz de dar meu proprio filho, pra não ficar velha…

Liú amamenta Wasinhgton num peito e Lionel no outro, o segundo gemeo espera sua vez. D. Menina entra no quarto de Liú. Chora muito.

D. Menina
(desesperada)

Liú minha preta… minha pretinha…só voce pode me salvar…Lionel meu filho querido, não posso lhe entregar…(Liú espantada não entende o que está acontecendo) …é o fim do mundo, é o fim do mundo…prometi dar um filho pro mundo não acabar…e agora, Liú? …vocer pode me ajudar. Voce tem dois filhos e eu só tenho um… vou dar um dos seus filhos pro mundo não acabar…(Liú com o menino branco e o preto no colo, chora olhando pro outro sendo carregado por D. Menina)
Não se preocupe, Washington e Lionel serão criados como meus filhos, os dois…darei tudo pro seu filho…nunca mais voce vai embora daqui de casa…te sustento até o fim de sua vida…casa e comida…crio seu filho como o meu…

Os tres meninos choram. Liú põe no peito Lionel e Washington, que param de chorar. D. Menina sai levando o prometido. Na sala o radio dá a noticia de um grande acidente ecologico. Na praia as ondas quebram na areia, negras. Um vazamento de oleo polui toda a baia de todos os santos. Duas mãos brancas colocam nas aguas negras do mar um menino preto. O ceu escurece. O menino flutua no mar denso de oleo. Escuridão total. Chaminé de um navio. O navio apita.  Chama do fogão na panela. Panela de pressão apita. Camera abre mostrando as panelas fumegantes.

Liú

(Lagrimas nos olhos)…meu filho…(afaga os meninos, aconselha)  meus filhinhos…cuidado com o mar…não vão nadar no fundo…cês sabem nadar?…fiquem ali pertinho da areia…meu filho…  cuidado com o mar…

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Santa reaparece. Linda e nua. Ceu vermelho, magenta, crepuscular. Santa é india. Pele avermelhada. Dourada. A camisola ora branca, ora dourada como sua pele, embalada pela brisa da tarde dá a impressão que Santa flutua. Grande explosão. O ceu vermelho transforma-se em labaredas de fogo. Um incendio. Um casarão em chamas. Sirene de Bombeiros. Gente na rua tentando salvar os pertences do fogo. O Bombeiro não chega. Familias desabrigadas.

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Nos escombros do incendio, uma pequena chama. os afilhados de Anamelia mijam no pequeno foco de fogo até apagar. Na barbearia  Percivaldo amola a navalha. Um cliente com a cara cheia de espuma comenta o incendio. Nogueira está sentado numa cadeira, com seu pijama e paletó, lendo uma revista O Cruzeiro. Carlô varre o chão. Outros clientes esperam.

 

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No Bar do Dominó, todos bebem. Janjão conversa com Marculino.

Janjão

–  Sabe de uma coisa, eu tô achando que o sacana do Teófilo tá armando alguma…esse negÓcio do governo botar a gente pra fora…aí tem dedo dele! Quando os home do governo chega, ele tá lá, sempre lambendo as bota. Depois fica aconselhando o pessoal sair, sem reclamar…qualé o interesse dele? …eu acho que foi ele quem chamou a policia na queima do judas.

Marculino

– Rapaz, passei pouco tempo fora e tanta coisa aconteceu…a gente precisa fazer o que é bom pra nós… reformar o casarão pode até ser bom; mas tambem não pode botar a gente pra fora…pra morar lá no fim do mundo…a gente tambem tem que ganhar…tem que ter trabalho…se a gente sai, fica tudo pros bacanas, pros granfinos protegidos do governo… a gente tem que ficar é aqui, aproveitar do que tá sendo feito… É melhor ficar de olho no Teófilo, se afaste dele.

Jeep chega. Manobra para estacionar. Soluça e tosse, engasga. Não estaciona corretamente, como de habito. O dono do bar ri. Todos riem.

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O Brega. Um palco pequeno no canto. Mais ou menos 10 mesas. American-bar. Luz vermelha e estroboscopica. Ao centro pequena pista de dança. Da janela avista-se a Baía de Todos os Santos. Na porta cortina de tiras de plastico coloridas. Numa mesa de canto um moço, solitário, toma sua cerveja. As putas dançam. Tiram os homens para dançar. Dançam umas com as outras, lúbricas, sensuais, exarcebadas, procuram excitar os clientes. India sentada no american-bar, observa o moço solitário. Uma puta chama ele para dançar, ele não quer. India senta na mesa do moço. Silencio. O moço bebe, olhando detidamente para India, pensativo. India se serve de cerveja. Os casais dançam. India segura a mão do moço. As mãos namoram. O moço fita India, curioso, seduzido. India se levanta trazendo o moço pela mão. No quarto, uma cama de casal com colchão de molas velho, uma penteadeira, cadeira, um criado mudo com  uma jarra de agua dentro de uma bacia de ágata. India tira a roupa, fica de calcinha. O rosto envelhecido esconde um corpo forte. Peitos fartos, grandes. O moço esta sentado na cama, olhando atentamente para tudo dentro do quarto, cada objeto, cada detalhe. India deita na cama, tenta abrir, tirar as calças do moço.

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É dia de domingo no Pelô. Tem navio de passageiro no Cais do Porto e o Centro Histórico está cheio de turistas que circulam em grupos, acompanhados por guias que vão mostrando a beleza da arquitetura colonial, as igrejas e as manifestações artísticas do povo da Bahia aos visitantes. No Terreiro de Jesus vê-se uma roda de capoeira, tabuleiros de artesãos, meninos vendendo fitinhas de Bonfim, etc… Os grupos de turistas e alguns curiosos param durante algum tempo na roda, compram uma ou outra lembrança e prosseguem na peregrinação turística,
Marculino, que ùltimamente já não participa dessas rodas, já que após a excursão pelo exterior e diversas capitais brasileiras mantém atividade mais rendável ( apresentações com cachê garantido em inaugurações oficiais, teatros, etc…), ao passar por lá se encontra com Andrea e Doninha sentadas na Cantina da Lua. Pára pra papear, e  conversa vem conversa vai, recebe uma baita provocão de Andrea:

Andrea

– Não gostei daquele seu grupo não. Tudo muito estilizado. Cê tá se perdendo alí. Você é um talento cara! Queria ver, sabe o que, você ir alí naquela roda, e botar pra foder com Doninha. Tive um saque, cara, que o grande barato é a dupla Marculino e Doninha. Juntos cês fazem mais sucesso que Bonny e Clayde no cinema. E divulgam a verdadeira capoeira!

Andrea, com seu jeito sedudor e descontraido, mexe profundamenmte com a cabeça de Marculino. Ele ficaolhando desbundado pra aquela “lourinha maluca”. Pra ele, parece meio absurdo o que ela está falando, mas para manter o clima de paquera ele resolve satisfazer o pedido dela. Afinal, ele não tem nada a perder, e vai ser até interessante ver a cara de espanto dos seus colegas capoeiras… Pois bem, Marculino vai até a roda e nem precisa dizer nada: assim que se aproxima a sua presença é imediatamente percebida pelo contra-mestre, que sem vacilar lhe chama pra roda. Ele joga com um, com outro, e de repente para surpresa do grupo, Marculino chama Doninha pra roda. São momentos bonitos de se ver!  O carisma dos dois imediatamente contagia o ambiente, e assim como previra Andrea chama a atenção de todos de uma forma inusitada. E a danada da Doninha leva jeito. Tem estilo próprio e é firme nas investidas. Enquanto Marculino fica só fazendo acrobacias, ela sempre que pode tenta atingir de cheio o companheiro, e ele tem que usar de toda sua habilidade para se desvencilhar dos golpes. Aquilo cria o maior alvoroço entre os presentes. O contra-mestre percebendo o sucesso, puxa a cantiga de pedir dinheiro, e as notas caem feito chuva nas pedras portuguesas! Marculino e Doninha com muito gingado vão dando aús mirabolantes e apanhando as notas com a boca. O público vai ao delírio. Após mais algumas rodadas os tres se despedem dos capoeiras e saem abraçados sorrindo rumo ao casarão da Academia. Estava formada uma dupla inseparável. Ou melhor, um trio…

 

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No salão da Academia estào reunidos em círculo, Bacharel, Maestro Esmeraldo. Guaiamúm, Osvaldo, Marculino, o vereador, o contra mestre, Doninha, Percivaldo, Violera, Primitivo e mais algumas outras pessoas. O assunto em pauta é a notícia da desapopriação dos casarões para a recuperação do Centro Histórico. Bacharel toma a palavra:

BACHAREL

– Sei que não é de hoje que se fala nisso. Muitos aqui não acreditam que possam ser despejados pelo tempo que moram na mesma casa, pelos direitos adquiridos. Mas juro pra vocês que se a gente não se organizar e fizer alguma coisa, o pior vai acontecer. Temos que educar o pessoal mais desprovido da área. Nos auto-policiarmos, porque senão vai dar zebra! Sei que precisa muita paciência e determinação. A maioria das crianças e adolecentes não frequentam escola e é levada pra marginalidade fácil, fácil. Os furtos na área estão aumentando de forma assustadora. Em cada esquina vê-se menores passando fumo, sendo explorados por gente que não tem escrúpulos. E essa situação está ficando insustentável pra nós que ganhamos a vida honestamente. Vocês devem estar percebendo que a coleta de lixo está cada vez pior, as luzes queimadas dos postes não estào sendo substituidas, a polícia trata os moradores como suspeitos em potencial. Se continuar assim vai ficar impossivel a gente se manter aqui. Mesmo o pessoal mais antigo como nós.

Maestro Esmeraldo pede  a palavra:

-Acho que a única forma da gente  tornar mais difícil o despejo, é tornando as nossas atividades profissionais interligadas com a área de assistencia social que o pessoal do IPAC, da FUNDAC está incentivando. Estou desenvolvento um projeto na Oficina de ensinar aos meninos e adolecentes da área a fabricar instrumentos de percussão, e isso está despertando neles uma coisa muito bonita que é tocar. É engraçados como eles são musicais. Só bastou esse incentivo e eles além de estarem aprendendo uma profissão, estão desenvolvendo um lado artístico que também pode resultar em trabalho futuramente. Acho que isso deve ser seguido pela Academia: além dos alunos convencionais, a gente pode fazer um trabalho com a gurizada do bairro. Assim como D, Cota que sabe costurar, poderia ensinar às meninas esse ofício. Assim como outros presentes e a quem mais se interessar. Acredito que se a gente ensina um ofício aos meninos, a coisa começa a acontecer. A academia e a oficina tem horas ociosas. É um espaço que poderia ser oferecido à comunidade do Pelourinho.

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Marculino observa melancólico e pensativo da janela do seu quarto, que dá pro quintal, Janjão cuidando dos seus galos de briga. Janjão percebe, e fazendo um sinal pro irmão descer, diz brincalhão:

JANJÃO

– Qualé, mano? Tá  de bode… Desce aqui, vai… “cure sua dor com a minha dor, que grandes mágoas podem curar mágoas..” ( E dá uma boa risada.)

Marculino desce, se senta no degrau da escada, e enquanto Janjão massageia os galos que  acabara de raspar; os dois conversam

MARCULINO

– Quando eu cheguei aqui vindo do orfanato, o que mais eu gostava de fazer era ficar ajudando a cuidar dos bichos. Até mais do que pescar, sabe! Se lembra do dia que a mãe botou um dos galos na panela? Chorei  feito um besta. Mais por você que pelo galo, Jão. Cê tava na pescaria com o pai, e eu ficava sofrendo, sabendo que você ia se retar. A malícia que dizem que tenho na capoeira, muito dela eu aprendi com seus galos. Que o pai não me ouça falar essa blasfemia!

(E abre um sorriso amarelo)

JANJÃO

– Que papo de giló é esse mano? Isso tá parecendo gamação…

MARCULINO:
(Como se nem tivesse ouvido o comentário do irmão)

– Quando eu cheguei aqui  vindo do orfanato, achei que nunca mais ia ficar triste na vida. Ganhei um pai, uma mãe, dois irmãos. O que eu poderia querer mais da vida? Sou um ingrato mesmo. Até pras “estranjas” já fui, mas fica esse nó no peito… essa coisa atravancada na garganta…

JANJÃO:

Se abra, vai bicho! Quem é dessa vez? Ou é mais de uma? Cê com seu jeitão que eu conheço, deve tá achando que a lourinha não é pro seu bico, né? Não entre nessa. Nada de apaixonite aguda. Amor que fica é amor de pica. Não se esqueça da sabedoria popular…

MARCULINO
(Insistindo em só vomitar sentimentos, confidências, sem contudo ser explícito, nem cair na linguagem vulgar de Janjão.)

– Muitas vezes no meio da luta, eu vejo “Napoleão” esporando. Se lembra daquele  galo pedrês? Foi ele que me ensinou a manter a força do equilíbrio aqui, ó…(colocando a mão em cima do umbigo) Muitos galos com muito mais força física que ele, se esbarrou alí, ó… no centro. (Faz uma pausa, como se recordasse de algo e continua) Agora, durante essa excursão, fui fazer a barba lá no Quartier Latin, em Paris, e quando o cara tava me massageando com água de colônia, me lembrei de você dando esses tapinhas nos bichos…
Essa última fala de Marculino, após a pausa, é em off. As imagens são das mãos de Janjão massageando as coxas do galo que  saem em fusão com as mãos de Percivaldo, na barbearia, falando pro cliente:

PERCIVALDO:

– Deu galo no milhar,  hoje. Teófilo é quem vai se dar bem. Tem o cú virado pra lua, o sacana!

carvão na laje batida, Teófilo traça o novo mapa de ação:

– Quero vocês agindo longe daqui. Lá pelas bandas do relógio de S. Pedro,campo grande… Quem cagar fora do pinico já sabe, vai vira adubo de pedreira!

No fogo, a água fervente transborda numa cascata de amendoim.

 

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Teófilo decepcionado com o roubo do cemitério, introduz Zé Peba no roubo de imagens.

Zé Peba chega no sotão coberto de terra e carregando um saco de alinhagem. Teófilo se assusta e imediatamente fala:

– Saí pra lá minhoca de cemitério, vai tomar um banho que você tá fedendo a defunto!

Zé Peba se encaminha pro banheiro.Téofilo vira o saco e despeja o conteúdo no assoalho. Alguns poucos dentes de ouro caem no chão juntamente com um volume pesado. Teófilo pega o volume e leva à torneira. A àgua escorre desnudando uma bela imagem barrôca. Peba volta lambido. Teófilo comenta sobre o roubo,espertamente desvalorizando o produto.

– Pé de chinelo, muito fuleira essa sua feira. Tudo ouro besouro.
Vai ser difícil conseguir quem compre essa trolha.
Vou quebrar a sua e te dar mais do que vale. Fala Teófilo passando um nota amarrotada.
Agora pode ir antes que alguém te veja por aqui. A Imagem vou deixar por aqui pra vê se ilumina os negócios.

Zé Peba se encaminha pelo corredor.Teófilo fica olhando a santa.
Antes que Zé peba suma na escada, Teófilo o chama de volta e
fala:

– Volte aqui que a santa acabou de me dar uma luz.

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